25 de dezembro de 2010

ah, quem pode saber de que outras vidas veio?

Quem o encanto dirá destas noites de estio?
Corre de estrela em estrela um leve calafrio,
Há queixas doces no ar... Eu, recolhido e só,
Ergo o sonho da terra, ergo a fronte do pó,
Para purificar o coração manchado,
Cheio de ódio, de fel, de angústia e de pecado...

Que esquisita saudade! - Uma lembrança estranha
De ter vivido já no alto de uma montanha,
Tão alta que tocava o céu... Belo país,
Onde, em perpétuo sonho, eu vivia feliz,
Livre da ingratidão, livre da indiferença,
No seio maternal da Ilusão e da Crença!

Que inexorável mão, sem piedade, cativo,
Estrelas, me encerrou no cárcere em que vivo?
Louco, em vão, do profundo horror deste atascal,
Bracejo, e penso em vão, para fugir do mal!
Por que, para uma ignota e longínqua paragem,
Astros, não me levais nesta eterna viagem?

Ah! Quem pode saber de que outras vidas veio?
Quantas vezes, fitando a Via-Láctea, creio
Todo o mistério ver aberto ao meu olhar!
Tremo... e cuido sentir dentro de mim pesar
Uma alma alheia, uma alma em minha alma escondida
- O cadáver de alguém de quem carrego a vida...


olavo bilac

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